Diálogo entre a Generosidade e a Solidariedade

A Generosidade endireitou-se na poltrona e proferiu com voz altiva:

– Das ações humanas eu sou a mais nobre!

– Das ações humanas eu sou a mais eficaz – retrucou a Solidariedade.

A Generosidade torceu o nariz, mas não perdeu a pose:

– Do ponto de vista moral, eu sou das virtudes a melhor, pois não peço nada em troca. Estou sempre pronta a partilhar o que me é caro. Minha sina é apoiar os desamparados e emanar por onde passo, o amor.

A Solidariedade então enunciou com o dedo em riste:

– E juntas, nós lutaremos contra o maior de todos os males; a avareza. Por isso, a sua prática, minha nobre colega, é um ato de grande dignidade e de grande autoestima.

– E de coragem – completou a Generosidade sem falsa modéstia. – Coragem de doar-se, de sacrificar-se, de permitir-se…

– De abrir-se ao mundo e a todos os seus absurdos – ponderou a Solidariedade.

A Generosidade sentiu-se lisonjeada.

– Muito me admira o seu desapego, generosa amiga. Mas há de convir que atos generosos não resolvem a questão da penúria extrema.

– Ora, como assim? – indagou a gentil senhora com um ar desolado.

– Ser apenas generosa não compensará os disparates sociais. Poderá amenizar temporariamente a dor de um indivíduo, mas as causas de sua precariedade jamais serão saneadas.

– Basta contentar um só coração para iluminar a minha alma – retrucou a Generosidade. – E além do mais, minha pretensão é apenas assistir ao próximo, sem distinção alguma, faço o bem, sem olhar a quem… – E alisando as sobrancelhas continuou – Esta é a maior de todas as virtudes. A Generosidade supera o próprio ato de amor. Geralmente o amor limita-se aos entes queridos, aos familiares e amigos mais próximos, mas um gesto generoso estende-se a um estranho qualquer, sem que se tenha nenhum vínculo emocional ou material. Pura benevolência.

– Não há dúvida. No entanto, estou convencida de que o ato solidário é a forma mais eficaz de alcançar melhorias para a coletividade. A conciliação de interesses e propósitos é decisiva para o avanço político e socioeconômico.

– Então a senhora confessa ser movida por interesses? – interpelou a Generosidade com um sorriso de satisfação estampado nos lábios.

– Certamente, nenhuma de minhas ações seria uma ação desinteressada, como convém à generosa amiga, mas uma ação mobilizadora capaz de forjar uma mudança significativa na qual todas as partes envolvidas se beneficiem. Eis a importância do ato solidário.

– Sim, mas não deixa de ser um ato interesseiro.

– Não há vergonha alguma em defender interesses comuns. A palavra interesse vem do latim, interesse, de Inter, “entre” e Esse, “ser e estar”, ou seja “estar entre”, de fazer parte, ser de importância. Portanto, o interesse é o elo que une um grupo, uma comunidade ou sociedade.

Depois de refletir por um momento a Generosidade ponderou:

– Une ao mesmo tempo que separa…

– Como uma mesa de jantar que une e, ao mesmo tempo, separa os convidados.

A Generosidade acenou a cabeça. A Solidariedade retomou a palavra:

– Por mais árduo que seja o empenho, as adversidades geradas por interesses distintos hão de existir, eternamente. Se não houvesse o interesse pela troca comercial, por exemplo, viveríamos num mundo assolado por guerras. Por isso, minha cara, é sempre preferível exaltarmos os interesses coletivos.

– Sua exposição é muito pertinente, mas pouco convincente, afinal nada mais belo que o amor incondicional, doar-se em abundância, saciar as carências de quem mais necessita sem esperar uma recompensa sequer. Não há no mundo compaixão maior pela humanidade – disse a Generosidade erguendo as mãos ao céu.

Com a paciência que lhe era peculiar, a Solidariedade prosseguiu:

– Eu não discordo de nenhuma das suas colocações. Entretanto, o meu compromisso é para se evitar o conflito. E de todos os atos, o mais eficaz para tal escopo é a harmonia de interesses, na qual indivíduos com interesses dos mais variados cooperem entre si para alcançar o bem comum.

A Generosidade segurou o riso:

– E quem garante que a tal “harmonia de interesses” não será corrompida para o benefício da minoria?

Surpreendida com a indagação de sua colega, a Solidariedade ergueu a sobrancelha, endireitou-se na poltrona e arrematou muito tranquilamente:

– Se a humanidade exercesse com mais destreza a qualidade da empatia, qualidade tão em falta em nossos dias, haveria talvez menos egoísmo nas relações humanas, em todos os seus âmbitos, profissional e afetivo. Por essas e por outras, devo concordar com a senhora, minha cara Generosidade; se o mundo é egoísta façamos com que individualmente o seja o menos possível. Enquanto se pensarmos sob a ótica solidária, constataríamos o inverso; se o indivíduo é egoísta, façamos com que ao menos seja egoísta coletivamente.

  – Eis um ponto em que estamos plenamente de acordo.

As duas senhoras entreolharam-se por cima dos óculos e sorriram.


Um conto de Marcelo Candido Madeira

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