Ares da modernidade

Tlim, Tlim, Tlim, era a terceira vez que tocávamos a campainha sobre o balcão e ninguém para nos atender. Minha mulher já estava impaciente quando chegou o recepcionista meio atrapalhado se desculpando. Estávamos de férias, depois de tanto tempo precisávamos os dois de um bom descanso e fugir do stress do dia a dia de uma cidade grande.

Seriam poucos dias, mas o suficiente para esquecer os aborrecimentos do escritório, reuniões e funcionários desleixados. Enfim, nossas férias tão sonhadas numa praia remota no litoral brasileiro.

A viagem foi um tanto cansativa, mas estávamos excitados em aproveitar a praia o mais rápido possível. Eu logo fiz o pedido, havíamos reservado uma suíte para casal com vista para o mar.

E o recepcionista se pôs um pouco nervoso e começou a vasculhar os papéis em cima da mesa como se procurasse nossa reserva. E eu pensei, mas que raios ele esta fazendo? E como se ele lesse meus pensamentos me respondeu:

– Tivemos um problema com os computadores do Hotel e perdemos muitos dos nossos dados. Provavelmente perdemos também a reserva que o senhor fez.

Fiquei perplexo. Chocado. E ele muito gentil, sem perder a calma, continuou:

– Queira, por favor, preencher o formulário e providenciaremos imediatamente um quarto para o senhor!

E enquanto o recepcionista tratava juntamente com outros funcionários de resolver o problema, eu, preenchendo o tal formulário, não deixava de pensar na situação absurda em que me encontrava.

A humanidade passou milênios escrevendo sobre peles secas de animais, há cerca de 4.000 anos atrás foi inventado o papiro, depois veio o papel e todos se renderam a revolução de Gutenberg.

Tudo isso me fazia refletir: puxa, passamos mais tempo da história da humanidade escrevendo a mão do que teclando num computador!

E agora nos vemos completamente dependentes dos humores de uma máquina! Eu bem que fiquei muito chateado com minha filha quando ela gritava pela casa dizendo que perdera todos seus e-mails, chorava e eu dizia: mas não é possível, você não anotou os e-mails de seus amigos numa caderneta?

E ela aos prantos me dizia: Que caderneta o quê, pai. – Buáááá! –  Eu nasci e cresci na guerra fria, o tempo em que todo mundo queria derrubar o sistema, seja ele qual fosse, e hoje em dia o sistema cai e todos se apavoram!

Preenchido o formulário fomos para o quarto, tal qual queríamos com vista para o mar. Chegando aos aposentos vimos uma cesta de fruta e arranjos de flores com um cartão bem amável: “Bem-vinda Família Torres”. Balancei a cabeça. Nós nos chamávamos Rezende.

E logo veio a camareira e rapidamente trocou a cesta e o cartão. Eu não lhe dei gorjeta. Onde já se viu?

Passamos quatro dias agradáveis passeando pela praia, já estávamos com um bronzeado que faria inveja no escritório. Tudo pronto. Malas arrumadas e nos dirigimos ao aeroporto. Ao chegarmos no check-in sinto falta das passagens. Desespero. Taquicardia. Por sorte a funcionária do guichê me vendo suar frio me acalma:

– Olha, meu senhor, não se preocupe não, o senhor tem um bilhete eletrônico, basta me dizer seu nome de família e o procuramos  no sistema.

– Ufa, que  seríamos  sem  as  máquinas?


Marcelo Madeira

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