Elevador

Mal saí do consultório, apertei o botão para descer. Conferi no painel, acima da porta, onde estaria o elevador: décimo segundo. Faltavam dois andares. Pensei em descer de escada. Mas, logo desisti. Não valeria tal sacrifício.

Eu estava pouco à vontade. Atrás de mim, um senhor já impaciente esfregava as mãos, como se suasse frio, demonstrando sua ansiedade. Enfim, ele chegou. Abriu-se a porta e entrei. O senhor entrou comigo. No interior já havia um casal. Acho que não se conheciam. Não se falavam. Acenei a cabeça discretamente. Eles nem se moveram. Com gestos lentos, precipitei-me a apertar o botão do térreo. Nem precisava. A luz acesa indicava que alguém já o havia apertado. Posicionei-me num dos cantos do elevador com a cabeça erguida, mas encabulado. Olhava pro nada. Um silêncio constrangedor. No painel, os andares em contagem decrescente. Lento demais, uma eternidade.

O elevador parou, abriu-se a porta e um senhor entrou sem dizer nada, além de um seco bom dia. Ninguém respondeu. Tentei retribuir o comprimento, mas minha garganta secou, pigarreei. Pude reparar que o senhor, que acabara de entrar, trajava um terno alinhado e uma gravata laranja, sapatos lustrados e uma maleta preta. Pensei, porque diabos a gravata laranja. Talvez fosse uma forma de dizer que apesar de trazer consigo a civilização amarrada ao pescoço, ele não estava preso a normas assim tão rígidas. Era, quem sabe, uma maneira de contrabalançar.

Novamente o elevador parou e entraram mais dois homens. Ao verem a porta se abrir eles cessaram a conversa. Entraram calados. Todos se acomodaram para dar mais espaço. Ninguém se olhava. Uns olhavam para o chão, outros para o alto. Eu, de olho no painel: seis, cinco, quatro…Paramos. Uma mulher vistosa, nos seus trinta anos, pergunta se sobe. Os homens, em coro e se esforçando na simpatia, respondem: “desce”. Ela entra. Todos se acomodaram. Olhares vesgos e a loira fazendo de conta que nem é com ela. Fica ainda mais prosa e dá uma sacudidela na cabeça esvoaçando seus cabelos. Ouvem-se suspiros baixinhos.

O elevador pára. Três senhores espicham o pescoço para ver se ainda há lugar. No interior do elevador, os homens fazendo uma barricada avançam alguns passos à frente: “Lotado” – disseram em coro. O elevador fecha a porta e todos se acomodam aliviados.

Enfim, chegamos ao térreo. A porta se abre deixando entrar o ar fresco que vem da portaria do prédio. Num tumulto, sem gentilezas, todos querem sair, um na frente do outro. Na confusão pisam no meu pé, espremem minha cara contra a parede e prefiro deixar que todos saiam. Passado o tumulto recomponho-me e, ao tentar sair, um mundo de gente entra. De novo, pisam no meu pé, espremem minha cara contra a parede, sem ao menos me deixarem falar. Do lado de fora, perguntam: desce? Sobe, respondem. E lá vou eu, de novo.


Um conto de Marcelo Madeira

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