O vendedor

– Bom dia, seu Jeremias.

– Bom dia, dona Florinda.  Como a senhora tem passado?

– Ah, muito bem, graças a Deus, tudo na mais santa paz.

– E hoje o que vai ser?

– O de sempre. Salame, presunto, pão, um litro de leite, maçãs, iogurte e outras coisinhas mais. Fiz até uma listinha aqui.

– Ora, deixe-me ver – disse Jeremias pegando gentilmente a lista em suas mãos. – Vou providenciar isto eu mesmo. A senhora chegou em boa hora. Recebemos hoje pela manhã mercadorias fresquinhas da capital.

– Que bom, seu Jeremias, muito obrigada – agradeceu ela com um sorriso.

Jeremias saiu detrás do balcão lendo a lista que dona Florinda fizera e enquanto buscava os produtos na prateleira ela lhe fez mais um pedido:

– Ah, por favor, já ia me esquecendo. O senhor poderia também incluir dois saquinhos de jujuba para os meus netinhos?

– Pois não, dona Florinda, mas seus netos já estão crescidinhos para gostarem de jujuba.

– Pois serão sempre os meus netinhos.

– Está certo.  Aqui está sua sacola. Marco  no  caderninho?

– Sim, por favor. Acertamos no fim do mês.

– Sem nenhum problema, dona Florinda. Espere um momento que o Zezinho lhe ajudará com a sacola.

–Ele a acompanhará até sua casa. – E se dirigindo ao fundo do armazém, Jeremias chamou o menino.

– Muita gentileza a sua e de Zezinho também – disse agradecida dona Florinda.

– Zezinho, ajude dona Florinda, leve sua sacola e a acompanhe até sua casa.

– Pois não, senhor.  Bom dia,  dona Florinda.

– Bom dia, Zezinho.

– Passe bem, dona Florinda, lembranças aos seus.

– Igualmente, seu Jeremias, muito obrigada.

Zezinho carregando a sacola ainda abriu a porta para dona Florinda e saíram os dois em direção à rua. Com um sorriso nos lábios, Jeremias passava um pano úmido sobre o balcão. Há anos se dedicava a este oficio e zelava como ninguém o seu estabelecimento.

Minutos depois, um senhor de chapéu e bengala abre a porta fazendo soar o sininho pendurado no teto. Era o doutor Horácio, o dentista, amigo de longa data. Viera para lhe fazer uma visitinha.

– Ora, ora, doutor!  Que bons ventos o trazem?

– Estou na minha hora de almoço. Como está o senhor?

– Estou bem.  E o doutor?  Como está a família?

– Estamos todos bem.  Obrigado.

– E no trabalho, muitos clientes? – perguntou Jeremias.

– Ah, sim – respondeu doutor Horácio com um sorriso maroto. – Enquanto o senhor continuar vendendo jujubas e balas, minha clientela sempre aumentará.

– Hoje o doutor não leva nada? Acabou de chegar mercadorias fresquinhas da capital.

– Vou aproveitar e levar café em pó.

– É pra já – disse Jeremias apanhando a escada atrás do balcão.

– O senhor está animado para eleger nosso novo prefeito no domingo? – perguntou doutor Horácio com uma cara que denunciava o seu desprezo por estas eleições.

– Olha, para falar a verdade, não – respondeu Jeremias e debruçando-se sobre o balcão,  olhou para os lados e com a mão escondendo os lábios disse baixinho: –  O doutor  bem sabe que o que corre nesta cidade a boca pequena é que o doutor deveria ter se candidatado.

– Mas isso é ridículo – reagiu doutor Horácio erguendo a bengala. –  Quantas vezes eu devo repetir que não posso largar meu consultório e muito menos expor minha família a intrigas e boatos!

– Ah! Eu não aceito esta desculpa doutor. Ninguém teria coragem de falar mal do doutor ou dos seus.

– Não seja ingênuo, seu Jeremias, a vida política é um ninho de cobras. Não me sinto preparado para tal empreitada – e passando o lenço sobre a testa lamentou profundamente a reeleição do atual prefeito. – Seu adversário não terá a menor chance – disse ele.

– Não tem chance, nem carisma – disse Jeremias cabisbaixo.

E com as mãos presas aos suspensórios, doutor Horácio respirou fundo e completou:

– Não tem chance, nem carisma, nem redes de rádio, nem fábricas.

– Não tem nada – concluiu Jeremias desconsolado.

Nesse mesmo instante soa o sininho da porta. Um homem bem vestido com um terno bem cortado e gravata vermelha entra no armazém. Jeremias saúda o visitante que timidamente lança um olhar por todo o estabelecimento.

– Bom dia. Posso ajudá–lo?

– Estou de passagem pela cidade e só estou dando uma olhada – respondeu o homem.

– Pois não, fique a vontade – disse Jeremias e se dirigindo ao doutor Horácio perguntou: – Então doutor?  O senhor vai querer o café em pó?

– Sim, por favor, antes que eu me esqueça. E sabe do que mais, meu caro amigo? – continuou: –  O pior não é a incompetência deste atual prefeito, mas os problemas que o filho dele está trazendo para esta cidade. – Jeremias balançou a cabeça concordando e o doutor prosseguiu: – Todos sabem que o filho do prefeito está andando em más companhias e fazendo arruaças  pelas ruas até altas horas  da noite.

– Eu mesmo, meu caro, já tive problemas com essa rapaziada aqui no meu armazém – disse Jeremias enquanto percebia que o homem que há pouco entrara no armazém, discretamente, fingia não escutar a conversa.

E o doutor esbravejava com a bengala em punho.

– Pois então?  O caso vai de mal a pior. Alguém precisa tomar uma providência.

– Nossa cidade é pacata, nossa polícia nem sabe como lidar com os delinqüentes – disse Jeremias.

– A polícia não faz nada  –  indignou-se doutor Horácio. – E ainda por cima quem reclama é intimidado.

– Por certo que sim – disse Jeremias, sem tirar os olhos do visitante que andava vagarosamente pelas gôndolas. –  E o que o doutor sugere? –  indagou Jeremias.

– Ah! Sei lá, minha vontade é mandar esses moleques pro inferno! – respondeu o doutor perdendo a paciência e em seguida se lembrou: – E o café em pó?

Mal ele perguntara, a porta se abriu, o sininho soou e Jeremias sussurrou ao doutor:

– Falando em inferno o diabo aparece. Não olhe agora, mas acaba de chegar o filho do homem e sua gangue.

– O dever me chama – disse o doutor. – Tome o dinheiro pro café e fique com o troco. Obrigado pela prosa e nos vemos em breve. Devo me apressar senão hoje alguém aqui leva uma bengalada.

– Adeus, doutor. Obrigado. Volte  sempre.

Ao sair doutor Horácio acena ao visitante que discreto escutara toda a conversa. Os rapazes com sorrisos cínicos se aproximaram. O filho do prefeito com um ar insolente debruçou–se no balcão.

– Então, seu Jeremias? Viu algum fantasma? – Jeremias permanecia imóvel, visivelmente abespinhado e sua testa umedecia. O rapaz vendo que ganhara terreno persistia: – O senhor não tem do que se preocupar, viemos apenas para umas comprinhas.

E seus comparsas se assanharam.  O homem de paletó e gravata que a assistia tudo por detrás de uma gôndola permanecia impassível. A meninada logo começou a arremessar de um para o outro os sacos de batatas fritas. E Jeremias enérgico interveio:

– Deixem disso, seus moleques! Vão rasgar os sacos! – E tão logo terminara a frase se pôs a contornar o balcão em direção aos meninos. – Eu vou é chamar os pais de vocês, seus moleques abusados… – E num movimento brusco o rapaz ao seu lado saca de um canivete e força–o contra o pescoço de Jeremias.

– Hei, o que há velhinho? Nós vamos pagar, pode marcar na caderneta. Compraremos fiado.

Jeremias mal acreditava o que lhe sucedia, tamanho era o atrevimento daquele filhinho de papai. Os meninos percebendo–se donos da situação foram tomados por súbita exaltação e intensificaram a algazarra. Sob os olhares incrédulos do homem que permanecia estático o líder do bando continuava a compelir o canivete no pescoço de Jeremias até escorrer uma ligeira gota de sangue.  Entreolhavam–se como se medissem forças até que ouviram os sininhos da porta. Era Zezinho que acabara de chegar. O homem que a tudo assistia assustou–se com a possibilidade de a temperatura do ambiente se esquentar. Os meninos se aquietaram e o líder guardou discretamente seu canivete.

– Nós não vamos lhe fazer nenhum mal, seu Jeremias. Senão… quem forneceria os mantimentos a nossa tão calorosa cidade? – E como se recrutasse o seu pessoal ordenou: – Vamos cair fora! Marque aí, seu Jeremias.  Seis sacos de batata chips.

O bando se dispersava e Zezinho sem alarme ao pé da porta encarou o playboy.

– E você Zezinho? – retrucou o desordeiro. – Por que continua nessa espelunca?  – E bateu a porta  ao sair do recinto.

Zezinho correu no intuito de amparar Jeremias que lenta-mente se recompunha. Seus olhos umedecidos denunciavam sua consternação pelo ocorrido sua cabeça ainda revolvia  todo o fuzuê. De súbito o homem o acudiu e ele logo se endireitou.  E, com Jeremias ainda pelo braço ele, se pôs a falar:

– Mas o senhor agiu muito mal. Não deveria deixar as coisas chegarem a este ponto. Esses delinqüentes merecem uma lição.

– Ah!  Deixe estar.  Eu os conheço desde pequeninos. São apenas adolescentes. Isso logo passa, o senhor vai ver – disse Jeremias tentando remediar a situação enquanto voltava ao trabalho, mas o homem insistia:

– É por isso que eles estão assim. Eles ainda não encontraram ninguém pela frente que os pusessem limites. O dia que o senhor mostrar que não tem medo desta gentalha, eles botam o rabo entre as pernas e o respeitarão. –  E Jeremias atento escutava as bravatas daquele homem. E o homem, ao sentir sua atenção, prosseguia: – Mas para isso necessita–se de uma atitude drástica. O senhor tem que dar o exemplo. Basta uma emenda nessa corriola e eles não mais lhe aporrinharão.

Jeremias com seu jeito pacato e bonachão deu de ombros para todo aquele discurso e se voltou ao Zezinho dizendo-lhe:

– Vamos voltar ao trabalho Zezinho. E começou a passar o pano úmido sobre o balcão.

E o homem comedido, estendeu-lhe a mão:

– Aqui está o meu cartão, se o senhor precisar de alguma coisa não hesite em  me procurar.

Jeremias pegou o cartão das mãos do homem que o fitava seriamente. Devagar abriu a gaveta, apanhou os óculos colocando sobre o nariz e leu o cartão de visita atentamente. E surpreso perguntou:

– Mas o senhor também é vendedor?

– Sim.

– De quê? – perguntou Jeremias curioso.

– De armas.

– Ah! Mas eu não pretendo adquirir nenhuma arma de fogo – respondeu Jeremias perdendo o interesse pela conversa.

– De qualquer maneira vou lhe deixar o meu cartão. Nunca se sabe o dia de amanhã. Tenha um bom dia seu Jeremias.

E saiu altivo pela porta fazendo soar o sininho. Zezinho, ao lado do balcão olhava Jeremias pensativo e cabisbaixo a olhar para o cartão. O menino parecia um pouco decepcionado.  Jeremias o encarou seriamente como se lhe dissesse: “Volte ao trabalho”.

Zezinho seguiu em direção aos fundos da loja enquanto Jeremias sacudia o cartão dado por aquele homem e pensava com seus botões: Que diabo sua esposa diria se ele tivesse uma arma de fogo em seu estabelecimento?

Marcelo Madeira

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