A mentira

Silas era um homem pacato, sereno, de gestos lentos. Na verdade um pouco distraído, andava sempre nas nuvens. Porém seu maior defeito era o gosto pela mentira. Mentirinhas à toa, sem mais nem porquê. Mentia sem nenhuma necessidade apenas pelo hábito da mentira.

Um dia ao chegar atrasado no escritório se dirigiu ao chefe com a desculpa na ponta da língua: “O pneu furou”. E após ouvir a reprimenda do patrão sentou-se em frente a sua escrivaninha e pôs-se a trabalhar.

A jornada transcorrera tranqüilamente sem sobressaltos até que perto do fim do expediente o telefone toca. Ele visivelmente abatido atende a chamada. Sua namorada o convidava para sair depois do trabalho. Silas com uma voz suave lhe dissera que estava cansado e tentou postergar a data do encontro. Porém, pressionado por tamanha insistência, ele mentiu:

– Benzinho, na verdade eu tenho que preparar uns relatórios para amanhã de manhã.

Ela então o fez jurar de pés juntos que no dia seguinte se encontrariam para um cineminha. Afinal era o mínimo que ele podia fazer, já que ultimamente não demonstrava interesse para saídas espontâneas,  sempre  trazendo desculpas esfarrapadas.

No dia seguinte, Silas chega ao trabalho esbaforido todo manchado de graxa e com 40 minutos de atraso. Após nova reprimenda do patrão, ele com um sorriso amarelo responde:

– O pneu furou. Eu juro.

– Ora Silas, não tem cabimento. Um pneu furado hoje, um outro ontem. Deste jeito, saia mais cedo de casa para dar  tempo suficiente de trocar o pneu. Faça-me o favor!

O  patrão  lhe  voltou  as  costas  e saiu. Ele, envergonhado, sentou-se em frente a sua escrivaninha e mesmo sem limpar a graxa do rosto,  pôs-se  a trabalhar.

Ao findar o expediente, Silas olha para o relógio pendurado na parede.  E de súbito, é tomado pela excitação de se encontrar com a namorada. Já prestes a sair do escritório um funcionário lhe chama e deposita em sua mesa um calhamaço de papéis:

– Relatório pra amanhã de manhã – diz.

E estupefato Silas se deixa desmoronar no encosto da cadeira. Passa a mão na testa e pensa que precisará de muita coragem pra ligar pra sua namorada.

– Benzinho, eu juro, é verdade.

Ela do outro lado da linha, inconformada, pede o fim do relaciomento:

– Ou duas ou uma: Ou você é um mentiroso de marca maior ou é um bobalhão que está sendo explorado pelo patrão. Em ambos os casos eu tenho motivo de sobra para não querer ver de novo a sua cara!

Pronto. Lá estava Silas desconsolado e pensava:

– Ou sou pego na mentira ou a mentira me pega.


Um conto de Marcelo Madeira

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