O cientista e o teólogo

Do alto da colina podia se ver as andorinhas sobrevoando o pomar. A frescura da terra se erguia com a brisa primaveril daquela manhã. Os dois, num jardim garrido, sentados em bancos de pedra, entretinham-se ao teor da conversa. 

Cientista: Olhando assim um céu azul com nuvens tão pacatas, ninguém diria o quanto de agitação tem por detrás da vastidão do universo. Galáxias e planetas a serem descobertos, bilhões de estrelas nascendo e morrendo, tudo isso faz a imaginação correr solta… 

Teólogo: É verdade. Tamanho conhecimento humano trouxe à humanidade um universo maior do que qualquer religião poderia imaginar.  

Cientista: O conhecimento humano nos trouxe respostas mais fabulosas do que qualquer lenda bíblica!… E mesmo assim, abarrotados de conhecimento, ainda nos sentimos vazios na alma.  

Teólogo: Estamos todos tão impressionados com as vertiginosas transformações tecnológicas que nos afastamos gradualmente de nossas divindades. 

Cientista: Mas o que surpreende é que, mesmo com tantos avanços científicos, a humanidade ainda se rende ao poder da fé. 

Teólogo: A fé impulsiona a ciência. A mente humana tem uma necessidade de explicações para o sentido da vida. A fé é o aconchego aos corações mais angustiados com a noção do efêmero. 

Cientista: Concordo. 

Teólogo: E a fé não só impulsiona a ciência, como também, pode lhe dar as diretrizes éticas para que ela, um dia, não se distancie do humano.  

Cientista: De fato. Esse é um desafio para as futuras gerações. 

Teólogo: Hoje a ciência já tomou proporções tão fantásticas, meu caro, que assustam os mais leigos e seus propósitos, não se pode negar, nem sempre andam de mãos dadas com a moral e a ética. 

Cientista: É o que disse Dostoievski através de seu Ivan Karamazov: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. 

Teólogo: Sim. Não que eu seja contra os avanços da ciência, muito pelo contrário, porém, deve se tomar cuidado para que a ciência não extrapole e crie nossa própria destruição.  

Cientista: Mas temos que admitir que muitas das conquistas científicas realizadas, até hoje, têm beneficiado, e muito, a vida cotidiana.  

Teólogo: Sem dúvida. 

Cientista: Os exemplos mais notórios são as pesquisas na geração de diversas fontes de energia e ainda, os mais recentes progressos da biologia e da medicina a serviço da saúde.  

Teólogo: Sim, mas ambos são facas de dois gumes. 

Cientista: Sim, até aí, nada de mais. Todas as invenções e tecnologias podem ser consideradas facas de dois gumes. Todas nos trazem vantagens e desvantagens. 

Teólogo: Pois então, cabe a nós, fazer o bom uso das novas tecnologias. 

Cientista: Neste ponto, meu caro amigo, estamos bem de acordo. Parece-me que nossa divergência está no desejo de impor dogmas religiosos em detrimento ao desenvolvimento de pesquisas científicas vitais para a cura de tantas doenças terminais. 

Teólogo: O que se quer, nesses casos, é ampliar a discussão sobre nossa conduta ética e moral.  

Cientista: Dificultar pesquisas científicas pode significar também dificultar o futuro bem estar de nossos descendentes.  

Teólogo: Eu até acredito nas boas intenções da ciência – e de boas intenções o inferno está cheio – mas quem pode estar acima do bem e do mal? O que eu gostaria de ponderar aqui, meu caro homem das ciências, é o fato, muitas vezes perigoso, da ciência intervir em questões que nós humanos não estamos habilitados a concernir.  O que vemos, são muitos cientistas brincando de ser Deus. Parece que, tudo aquilo, aquela busca desenfreada pelo progresso, iniciada há dois séculos atrás, continua em seu curso crescente. Cabe aos homens sensatos, reformular as questões sobre a condução desses valores. Até onde queremos chegar e a que custo? 

Cientista: Concordo. Não há exageros em suas colocações. 

Teólogo: Aos meus olhos, o mundo moderno apresenta o seguinte cenário: um misto de maravilha e terror. Hoje em dia, nada é mais sagrado, tudo é posto abaixo, tudo é profanado! Perdemos o respeito pelo culto e pela cultura. Tudo é economicamente viável. E isso é assustador.  

Cientista: Em nome de um só Deus: o dinheiro. 

Teólogo: E por falar nisso, e você? Acredita em Deus? 

Cientista: Sim, mas não acredito nesse Deus entre o céu e o inferno. Acredito no Deus que habita os confins onde a ciência não domina.


Marcelo Madeira

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