Um dia de sol em Zurique

Nos dias de inverno, em Zurique, ter um dia de sol é uma raridade. Como a cidade é situada entre vales, a margem de um imenso lago, é comum pairar sobre nossas cabeças uma grossa névoa dias a fio, semanas, ou até meses, sem exagero. Às vezes, podemos observar a grande bola ardente por detrás das nuvens, sem óculos escuros, ou mesmo, sem apertar os olhos. Quando o sol aparece, as pessoas na rua param e sentam-se para aproveitar um pouquinho de vitamina D.

Aqui em casa fico de olho na janela, atento a sua chegada. Geralmente é coisa rápida, ele surge meio tímido, sem aviso prévio. Nesses casos, ponho minhas roupas de inverno e me preparo para sair.

Primeiro o minhocão, uma meia grossa, a calça, depois uma malha fina e pegajosa no corpo, uma camisa de manga comprida e…Pronto, ao olhar de novo pela janela o sol já se foi. Desisto. Com um frio desses, é melhor ficar em casa. Tiro primeiro a calça, o minhocão, a meia grossa, depois a camisa e quando eu menos espero, eis que surge novamente o sol, um solzinho de nada. Visto primeiro o minhocão, a meia grossa, a calça de um tecido grosso, depois a camisa de manga comprida, uma suéter de lã e por fim, um casacão, calço a bota, jogo sobre o pescoço o cachecol, afundo um gorro na cabeça, puxa…

Enfim, estou pronto. Confiro pela janela e lá está ele. Vejo se está tudo bem antes de sair, tudo fechado, fogão desligado e ao olhar de novo pela janela o sol já não está mais lá. Maldição. Sinto um calor desgraçado com toda a indumentária dentro de casa e decido ficar. Tiro a bota, o cachecol, o gorro, o minhocão, a calça, já estou suando de calor…Abro as janelas e entra um frio lancinante. Fecho as janelas. E não deixo de reparar que o sol voltou. Ele acanhado parece zombar de mim.

Agora me apresso, visto tudo o mais rápido que posso, o minhocão, a meia, a calça, a camisa, a suéter, o casacão, a bota, o cachecol, o gorro…Corro para a porta. Chego à rua e sinto um solzinho mixuruca acalentar o meu rosto. Fecho os olhos e logo bate um frio de lascar, abro um olho e depois o outro e me desespero. É tudo sombra. E um vento impiedoso começa a perfurar os meus ossos. Corro para casa. Entro esbaforido, tranco a porta e já sinto um calor. Tiro tudo. Vou até a janela na esperança de vê-lo novamente, mas é tudo breu. Escureceu. Agora, só me resta esperar pelo dia seguinte. Amanhã, ele não me escapa!

Marcelo Candido Madeira

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s