O andarilho

Depois de muito tempo de caminhada, Cris chegara a uma cachoeira situada bem no meio do bosque. Mais acima estaria a nascente, fonte de vida daquela floresta de árvores frondosas e enigmáticas. 

Cris já sabia de sua existência, mas ficou fascinado ao ver todo seu esplendor. Largou sua mochila numa das pedras, sentou-se e pôs-se a contemplar o vôo das borboletas, obra prima da mão divina, bem como o véu d’água que escorria do alto do penhasco. 

Sentiu vontade de ser, de fazer parte, de ter tudo aquilo para si, mas, logo se envergonhou do que pensara. Ajoelhou-se perto da margem e tomou um gole d’água. 

Foi então que percebeu que naquela mata não havia só o som de mata. Havia também um som que ele nunca escutara antes. Cris era um rapaz viajado, conhecia diversas espécies de aves, mas igual aquela, ele jamais ouvira. Era um som agudo que tomava todo o bosque. A música parecia variar de acordo com a brisa, leve e úmida. O tom agudo não irritava seus ouvidos, era bonito e o fascinava cada vez mais. 

De um tempo a outro, a música cessou e com ela o vento. Talvez fosse o próprio vento que ao passar, de galho em galho, fizesse um som tão mágico. Mas, preferiu não pensar mais nisto. 

Despiu-se rapidamente e mergulhou no riacho. O choque da água fria fez com que o rapaz gritasse. Acreditava assim que espantaria os males. Cris amava a vida. Ele, a água e a energia que os envolvia. 

De repente, o rapaz não se sentiu mais só. A música que soava das copas das árvores tornou-se mais clara. Olhou para o lado e viu uma senhora que chegava junto à margem com uma bacia nas mãos. O rapaz ficou meio sem graça por estar ali nu. 

– Sinta-se à vontade, meu bom moço – disse ela, com um ar bem humorado. – É raro ter visitantes aqui conosco – e afundou a bacia na ribeira para que a enchesse d’água. 

Cris nadou até margem, e sobre uma pedra, apanhou suas roupas e começou a se vestir. 

– A senhora mora aqui? 

– Moro não muito longe, atrás daquela colina.  

– Diga-me…- Cris hesitou um pouco, mas preferiu ir direto ao assunto. – Que melodia tão bonita é essa que vem lá do alto? 

– Se é bonita não sei, é melancólica. 

Cris permaneceu em silêncio. Ele talvez não deveria ter feito tal pergunta. 

– Desde menina – continuou a senhora, – eu escuto essa música. Apesar de ser uma melodia triste e melancólica, ela não me passa nenhuma tristeza.  Ela clama por um amor perdido.  

Cris não estava entendendo. A mulher não respondera sua pergunta. Ele foi até a margem e encheu o seu cantil. A mulher continuou a falar: 

– Há muito tempo, um casal de adolescentes vinha até esta cachoeira e aqui eles faziam seu reino dos sonhos. Eles eram felizes, juntos completavam a harmonia de toda essa paisagem.  

Ele ergueu a cabeça e tomou um gole no seu cantil sem tirar os olhos da copa das árvores. A mulher retirou do riacho a bacia que já estava cheia, e voltou a falar: 

– Até o dia em que o rapaz, achando que sonhar não era o bastante, saiu pelo mundo e nunca mais voltou. E até hoje, a menina chora pela sua perda. 

Cris se levantou meio atordoado. A mulher também fez o mesmo, pegou a bacia e a pôs sobre sua cabeça. Acenando-lhe, desejou-lhe boa sorte e seguiu em direção a colina. 

Meio trêmulo, o rapaz tratou de apanhar suas coisas. Pensou no que aquela estranha senhora lhe havia contado, olhou ao redor e no fundo, no fundo ainda estava curioso para saber que espécie de ave tão exótica seria aquela. 

Por um descuido, deixou cair da jaqueta a foto de sua namorada. Agachou-se para apanhá-la. Sentiu saudades. Pensou no quanto a amava e quem sabe não estaria mesmo na hora de vê-la novamente? 

Conto de Marcelo Madeira publicado no livro “Aperitivo de Letras”

Venha fazer parte desse Universo Sonoro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s