A via-crúcis de um espectador

Para não cair em tentação e sair por aí dizendo aquela máxima; “não vi e não gostei”, eu me senti na obrigação de ver o filme “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson. E tenho de lhes dizer: o filme é forte, porém muito sensível e acima de tudo muito cristão.  O diretor nos convida a viver de perto as últimas horas de Jesus, acompanhando seu flagelo, medo, angústia, tristeza e nunca sua revolta ou raiva.  

O que gerou protestos pelo mundo afora foi o tom pra lá de violento em que foi narrada a história escrita nos livros sagrados da Bíblia, conhecida por milhares de pessoas e com um personagem que talvez seja o mais famoso de todos os tempos, um verdadeiro ícone.  E é difícil ver uma figura tão carismática sendo torturada barbaramente no decorrer de todo o filme. Apesar de tudo isso, a obra de Mel Gibson não remete a nenhuma violência gratuita como o fazem tantos diretores na linha Schwarzenegger, muito pelo contrário, toda a violência no filme é denunciativa, tem o propósito de nos sensibilizar à Paixão de Cristo.   

Eu quando era criança pensava que essa Paixão era a Paixão de Cristo pelos homens, mas o sentido é aqui um pouco diferente. A palavra apropriada é aquela que vem do grego “pathos” que significa paixão no sentido de sofrer uma ação, seja ela boa ou má.  Na língua portuguesa a palavra “sofrer” já vem com a conotação de algo ruim, penoso e nunca como algo bom ou favorável, por isso a confusão.  E no latim, a palavra “passio” significa algo que se sofre e que se vive com a maior intensidade. O filme nos traz essa idéia do sofrimento de Jesus, sua fé e sua obra levada às últimas conseqüências. 

É de se compreender, na altura do lançamento do filme, a razão de tantos protestos da comunidade judaica, pois em deter-minada cena os sacerdotes judeus entregam Jesus de maneira covarde aos romanos e pedem pela sua crucificação. Outra cena simbolicamente forte é ver surgir a figura do diabo no meio do povo judeu. O filme, na altura, foi acusado de semear o anti– semitismo, desfazendo  assim,  os esforços seculares do Vaticano em restaurar  a paz entre  as duas religiões.  O ponto mais triste e lamentável é o fato de Mel  Gibson ter acentuado o calvário de Jesus ao invés de suas palavras, pois o sacrifício de Jesus deve ser compreendido à luz de seus ensinamentos, e não o contrário. 


Crônica de Marcelo Candido Madeira 

A crônica “A via-crúcis de um espectador” foi publicado em 20/01/05 na revista Via Brasil na Suíça – edição número 01/05. E posteriormente publicado no livro “A Vizinha suíça e outras crônicas” do mesmo autor em 2005.

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